Deputado Rubens Pereira Jr

Muda tudo para não mudar nada

 Artigo do vice-líder do PCdoB na Câmara dos Deputados Rubens Pereira Jr (MA) publicado originalmente no Jornal Pequeno
Quando eu soube que a Câmara dos Deputados iria
votar definitivamente a reforma política justamente quando eu tinha a
oportunidade de chegar a Brasília respaldado por 113.118 votos, fiquei
extremamente feliz e a Câmara ouvindo as vozes das ruas. Infelizmente, aos
poucos, fui me lembrando de uma música do cantor paraibano Flávio José que,
relembrando bem as raízes nordestinas, dizia: “Se avexe não, amanhã pode
acontecer tudo, inclusive nada”.
 
Isso resume, ao final das discussões, o que é a
reforma política que a Câmara dos Deputados aprovou. É uma reforma que, na
verdade, não reforma nada, substancialmente. Até porque, por reforma, entende-se
a modificação de algo velho, ultrapassado, que precisa ser alterado, algo que
já se esgotou.
 
Isso vale para uma casa, isso vale para um carro e
isso vale para o modo de se fazer política no País. Por reforma, pressupõe-se
um conserto, uma retificação de algo que vai mal. E onde está a raiz dos
problemas apontados pela sociedade para se exigir uma reforma política? Na
corrupção desenfreada e, principalmente, na crise de legitimidade que alcança a
política brasileira e, em especial, o Poder Legislativo.
 
Esses deveriam ser os problemas atacados pela
Reforma Política no Congresso. No entanto, o máximo que foi produzido pela
Câmara dos Deputados foi uma modernização conservadora, na expressão de Barrington
Moore Jr, sociólogo norte-americano que identificou a sobrevivência das
estruturas aristocráticas do Japão e Alemanha mesmo após a chegada do
capitalismo. Ou uma “revolução passiva”, como conceituou à época Gramsci. São
propostas de mudanças que vêm para mudar algo grave, e, na verdade, aprofundam
as desigualdades.
 
Narrando situação parecida na Itália do Resorgimento
do século XIX, o escritor Tomasi di Lampedusa cita, por meio de um personagem
de seu livro “O Leopardo”: Algo deve mudar para que tudo continue como está. A
reforma muda tudo, para não mudar nada”.
 
Só haveria um caminho para salvar a reforma
política, de acordo com o desejo da sociedade: acatar o fim do financiamento
empresarial, defendido por 80% da população segundo uma pesquisa da OAB. Uma única
medida iria alterar profundamente a forma de se fazer política em nosso País.
Aí, sim, nós poderíamos falar que o país fez uma reforma política de acordo com
os anseios da sociedade.

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